A (in)eficiência do transporte público

Além da educação, saúde, segurança pública, saneamento básico, do abismo separando ricos e pobres, das questões da terra, da energia, da poluição, da falta de planejamento no desenvolvimento das metrópoles, do problema da iluminação, das constantes greves em mais de 40 setores que o governo federal vêm enfrentando, da crise econômica, das políticas públicas, da questão das moradias, de mais de 50 universidades públicas que atingiram uma greve de duração recorde na história do ensino superior brasileiro, do desmatamento, das ineficientes políticas de desenvolvimento universitário, do atraso nas obras para a Copa do Mundo de 2014, do crescente desemprego, da justiça, do abandono das infraestruturas públicas, dos elevados impostos, da alta evasão escolar, do estagnado analfabetismo funcional… Ufa! A lista de problemas econômicos, políticos e sociais é imensa e não para por aí. Um novo problema surge e merece grande destaque: a dificuldade de locomoção nos grandes centros urbanos.

A população das grandes cidades brasileiras cresce todos os dias, porém as melhoras do transporte público não crescem no mesmo ritmo. Resultado: mais carros nas ruas. É intuitivo que muitos carros nas ruas provocam trânsito, que gera poluição, que causa danos à saúde, como doenças respiratórias, câncer e estresse. De acordo com uma recente pesquisa feita em São Paulo pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceira com a USP e Harvard, as últimas “medidas adotadas pelo poder público para melhorar o ar da capital paulista até agora foram importantes, porém não suficientes para evitar problemas de saúde. Apesar de a poluição ter diminuído, o número de veículos nas ruas está crescendo.”

 

Congestionamento em SP próximo ao Parque do Ibirapuera e a antiga sede do Detran-SP

 

A metrópole de São Paulo tem uma taxa de crescimento populacional anual de 1,2%, segundo o IBGE. Quer dizer que, a cada ano, a população aumenta 250 mil habitantes. Não se impressionou? Ao acompanhar o mesmo ritmo de crescimento, em 10 anos serão 2,5 novos milhões de habitantes, que corresponderão a 9% da população paulistana para o ano. Em 2022, 9% da população de São Paulo foi incluída na cidade nos últimos 10 anos. Para uma cidade que levou mais de 450 anos para atingir a marca de 20 milhões de pessoas, esse número é espantoso.

As comparações do sistema metroviário de Nova York com o de São Paulo são assustadoramente desiguais. São Paulo foi fundada 70 anos antes que Nova York e possui 7 vezes menos metrô. Veja outras comparações:

Comparações entre o metrô de NY e o de SP:

  • Nova York, EUA

388 anos (SP é 70 anos mais velha)

370 km de metrô (5 vezes mais que SP)

468 estações (7 vezes mais que SP)

780 km² de área (metade de SP)

18 milhões de habitantes na metrópole (2 milhões a menos que SP)

1,4 bilhão de pessoas usam o metrô por ano (300 milhões a mais que SP)

3,8 milhões de pessoas / km² de metrô / ano (4 vezes mais vazio que SP)

  • São Paulo, Brasil

458 anos (70 anos mais velha que NY)

74 km de metrô (5 vezes menos que NY)

64 estações (7 vezes menos que NY)

1 600 km² de área (2 vezes NY)

20 milhões de habitantes na metrópole (2 milhões a mais que NY)

1,1 bilhão de pessoas usa o metrô por ano (consideráveis 300 milhões menos que NY)

14,8 milhões de pessoas / km² de metrô / ano (4 vezes mais lotado que NY)

O metrô paulistano é mais lotado do mundo, de acordo com uma matéria publicada pelo jornal Folha de S. Paulo no fim de 2011. Pela comparação feita acima, é possível concluir que o metrô da capital paulista é 4 vezes mais lotado que o metrô da “capital do mundo”. A linha 4 (amarela) em São Paulo, a mais moderna da megacidade brasileira, que funciona com apenas 6 das 11 estações ainda em construção e um número muito reduzido de trens supermodernos e sem condutor, responde por cambaleantes 50% de sua eficiência total e já apresentou resultados espantosos de superlotação após sua longa fase de testes. Já ouvi pessoas no metrô se referindo à superlotação nos horários de pico como “o inferno de todo dia”.

 

 

Outro fato que vale a pena ser comentado pela oportunidade de expôr tal assunto no blog é o do dia mundial sem carro, que aconteceu há alguns dias. Enquanto houver políticas públicas de incentivo ao uso do automóvel (IPI reduzido, entre outras), o dia mundial do carro será congestionado. Não adianta a prefeitura de São Paulo criar ciclofaixas que funcionam aos domingos em vários locais da cidade, sem promover o uso do transporte público durante a semana. É certo que o objetivo da ciclofaixa no domingo não é aliviar o trânsito, mas sim promover lazer para os paulistanos, porém, é de grande contradição, o domingo ser superior ao sábado nos números de congestionamento. A prefeitura criou a ciclofaixa em várias importantes avenidas da cidade e, algumas delas, cedem metade do seu espaço para as bicicletas e a outra metade para os automóveis. Em dias de chuva, não se observa um ciclista nas duas faixas destinadas à ciclofaixa na ponte Cidade Universitária, mas, em réplica, vê-se apenas três faixas destinadas aos carros e um trânsito infernal atingindo a marginal Pinheiros. Falha no planejamento. O jornal Folha de S. Paulo publicou, no dia 22 de setembro de 2012, a seguinte matéria: No Dia Mundial Sem Carro, SP tem lentidão e ciclofaixa quase vazia.

É hora de a população se unir, reclamar mudanças e aproveitar o ano de eleição para exigir dos candidatos solução para problemas de trânsito nas grandes capitais brasileiras.

Termino a coluna com uma autêntica citação das questões do transporte: “Cidade desenvolvida não é aquela onde os pobres têm carro, é aquela onde os ricos usam o transporte público.”

 

por Gabriel Zago

25 de setembro de 2012

 

Referências: Unifesp, IBGE, CPTM e Folha de São Paulo

Por que a mídia não fala sobre a greve nas universidades federais?

Os 3 meses de greve das instituições federais se tornam cada vez mais invisíveis. Enquanto os assuntos mais comentados da mídia brasileira atingem uma população desinteressada por Educação (sim, totalmente desinteressada por Educação) e que prefere saber sobre Olimpíadas ou sobre a vida pessoal de pessoas famosas, mais de 50 universidades e institutos federais permanecem em greve e sem nenhum aparente avanço nas negociações.

 

Por que a Globo não fala sobre a greve dos professores das universidades federais?

 

A realidade mostra que mais de 90% da população não sabe que 80% das universidades do país estão em greve, mas sabe de cor todas as falas de uma novela disseminadora de pessoas sem opinião, brutas, vulgares, vingativas e cada vez mais fúteis e estúpidas.

Ao invés de exclamarem a necessidade de revolta populacional por conta da educação precária, ironicamente é muito mais fácil as pessoas ficarem no conforto de seus queridos lares sem perderem um capítulo de uma novela irrisória e que não pode oferecer nada a elas, salvo de pessoas cada vez mais ignorantes e que têm TODA a sua educação provinda da televisão.

 

 

Não chega a 15% o número de brasileiros que têm diploma universitario, cursam ou cursarão o ensino superior em até 3 anos. Mas os números são ainda mais críticos quando mostrados que destes mesmos 15%, quase 40% não dominam as necessidades básicas de leitura e escrita e outros 40% tiveram ou terão um ensino superior de qualidade ruim a regular. Dos 20% que se escapam dessa verdade, que equivalem a pouco mais de 5 milhões de pessoas, quase 80% vieram de universidades públicas. Status atual das universidades públicas: greve que ultrapassa 3 meses e sem previsão para retorno, visto que ”o Ministério da Educação anunciou o encerramento das negociações, pois a Copa do Mundo se encontra em previlégio agora”.

 

O vídeo abaixo mostra as promessas de Dilma Rousseff relacionadas a Educação antes das eleições, porém a realidade diz que seu governo está caminhando no sentido oposto ao que antes pregava:

DILMA ROUSSEFF: “Se não houver pagamento digno para professor, não há valorização pela sociedade da profissão de professor. Então, não há como, no Brasil, se fazer qualidade da educação sem pagar bem o professor. Nós começamos fazendo o piso nacional do magistério e elevando o salário para R$1.024. É pouco? É pouco. Porque o professor pra ser valorizado, ele precisa de ganhar bem. E mais: ele precisa de ter formação continuada. Não se pode, também, estabelecer com o professor uma relação de atrito quando o professor pede melhores salários, recebê-los com cassetetes ou interromper o diálogo.O diálogo é fundamental no respeito a essa profissão. E o Brasil só irá sair de uma situação de país emergente pra uma situação de país desenvolvido se a gente assegurar qualidade de educação pra nossos filhos e pra nossas crianças. Então, pra gente falar em creche, pra gente falar em educação básica, ensino fundamental, nós precisamos ter professores bem formados e ter professores bem pagos. Aí, a sua filha vai ficar orgulhosa; seus filhos vão ficar orgulhosos: ‘olha, eu sou professora e sou reconhecida socialmente’. Por isso que eu farei da campanha pra pagamento de salários dos professores uma das questões fundamentais do meu governo. Pagar bem o professor é o grande desafio que nós temos nos próximos anos pra além de qualquer outra coisa…”

 

 

O Andes (sindicato da greve) afirma que a situação está tão crítica nas universidades federais que até chega a faltar papel higiênico nos banheiros dos campi. O governo Dilma, que antes tinha como maior interesse a Educação, mostra estar longe da meta anterior à campanha provando que a realidade é outra.

Os instrumentos de comunicação como a TV aberta, que predomina em quase 70% dos domicílios que possuem aparelho de televisão no país (96% dos domicílios brasileiros possuem aparelho de televisão de acordo com dados da National Geographic Society) não comentam absolutamente nada a respeito da greve dos docentes das universidades federais porque a maioria dos canais abertos é aliada ao governo federal e está impedida de manchar sua imagem de “Brasil, um país para todos”. Além dos canais aliados, existem os não-aliados, aqueles que DIZEM pregar o jornalismo sério que SEMPRE explicita todos os lados das informações; mas apenas dizem.

 

 

As pessoas que não sabem o que realmente ocorre por trás das imagens falsas e obscuras que a mídia sazonalmente expõe dizem que os professores são gananciosos ao lutarem por melhores salários (a média de sálario da PM é maior que a média federal dos docentes) e que os sindicatos “só servem para atrapalhar”. Mas estas pessoas não sabem que os seus antepassados lutaram desde 1930 pelo direto da democracia e que o direito de greve foi uma das maiores conquistas democráticas depois do Regime Militar e que sem a presença dos sindicatos nada seria como tal é hoje. Essa fluência de informações abstratas e distorcidas que circulam na boca do povo, vêm da falta de interesse deles em saber o que realmente ocorre. “O limite da ignorância é quando alguém opina sobre algo sem saber nada a respeito do que está falando”.

É inequívoco e indiscutível que a mídia quer pessoas estultas para ter facilidade em manejá-las. É inconveniente para a imprensa evidenciar manifestações em prol de uma melhor educação superior porque estaria fugindo de seu encargo perante o governo em mostrar a insatisfação das pessoas com a gestão. Além do mais, se a população exige ensino superior de qualidade, não seria do interesse da mídia mostrar que isso ocorre, pois assim ela perderia as pessoas estúpidas que assistem a sujidade de seus programas de fim de domingo e a frivolidade de suas novelas de horário nobre.

 

 

Para demonstrar que realmente prega jornalismo, a mídia fala pouco sobre a greve das universidades nos jornais e na internet, porém majoritariamente quem lê jornais e utiliza a internet para bons fins são justamente as pessoas desconvencidas pela mídia, o que não leva a nada, pois o alvo central para a diminuição dos níveis de ignorância das população fica mais longe de ser alcançado porque quem realmente precisa saber da ineficiência do governo apenas têm acesso a TV aberta; que foi exposto anteriormente seus interesses. Quando a mídia raramente comenta sobre a greve, fala que os grevistas são vândalos, mas não mostra o porquê das manifestações.  Os caminhoneiros, cuja greve não dura 2 semanas foram visivelmente mais comentados do que a greve docente, ganhando capas de revistas alienadoras, páginas principais de jornais, além de teasers demorados em telejornais.

Há vários lutantes na internet exigindo da mídia uma transparência de assuntos como esses, porém esses gritos de democracia não estão alcançando o efeito desejado. Falta uma mídia transparente e inteiramente voltada em levar a verdade desprovida de interesses às pessoas. Isso sim é jornalismo.

 

 

 

O que falta ao povo, e provado por esta coluna que também ao governo, é entender que progresso não são cidades desenvolvidas, não é todos terem casa ou carro próprios, não é polícia nas ruas, não é emprego para todos, mas sim EDUCAÇÃO. É possível dizer com a maior convicção do mundo que isso é progresso. Educação é progresso. Uma vez de qualidade, se transforma em progresso. E uma vez alcançada uma excelente Educação, não existe regresso; diferentemente de outras esferas políticas e econômicas.

Mas sobra dizer que o resultado das inúmeras manifestações e a pouca informação sobres estas só levou, em 3 meses, ao fortalecimento da idéia da divisão e da inferioridade, visto que o governo federal ignora por completo a greve docente federal.

 

por Gabriel Zago

13 de agosto de 2012

Realidades da ECO-92 e esperanças da Rio+20

Depois de 20 anos, ocorre a terceira conferência mundial sobre as questões sócio-ambientais. Quais foram as mudanças que, de fato, ocorreram no contexto global entre esses 20 anos?

A Conferência Rio-92, ou ECO-92, fez com que o termo “desenvolvimento sustentável” se tornasse comum e preocupante ao mesmo tempo, tratando-se de alcançar metas econômicas sem comprometer o meio ambiente e a sociedade civil. Quais foram as feitorias do estabelecimento da ECO-92 e da adoção da Agenda 21? Elas se tornaram reais? Qual é a realidade global atual que traça os caminhos que deverão ser adotados pelas Nações Unidas em garantir o máximo sucesso da Rio+20?

 

Bandeiras dos países membros da ONU em Nova York

 

Em 1972, a Conferência de Estocolmo deu o primeiro alerta global sobre as questões ambientais, sendo a primeira conferência da história com o objetivo de organizar as relações entre homem e meio ambiente. Os recursos naturais que, até então, pareciam inesgotáveis aos olhos do mundo capitalista começaram a entrar em estado de atenção. Várias mudanças na natureza começaram a ser observadas, como a diminuição do volume de rios e lagos, o aumento na taxa de inversão térmica nas grandes cidades, a chuva ácida, e começou a se falar das conseqüências da industrialização mais do que nunca havia sido dito em nenhum momento da história contemporânea. A ONU entrou em cena, criando a Conferência de Estocolmo, com o intuindo de voltar os olhos dos países mais ricos à preocupação com as questões ambientais. Mais de 100 países e 400 ONGs expuseram suas idéias na conferência.

Vinte anos depois, no Rio de Janeiro, ocorreu a conferência ECO-92. As duas principais marcas dessa conferência foram (1) a criação do termo “desenvolvimento sustentável” e (2) a elaboração da Agenda 21, que consistia no compromisso de cada país em crescer, de todas as formas possíveis, garantindo harmonia entre homem e ambiente e, além disso, promovendo um desenvolvimento econômico-social das esferas menos favorecidas das populações de cada país. A ECO-92 também propiciou campo para o surgimento do Protocolo de Quioto, em 1997, com o objetivo de levar os países à redução da emissão de gases estufa. Dez anos após a ECO-92, ocorreu a Conferência de Joanesburgo, que foi voltada apenas às causas sociais.

O ano de 2012 marca a vez da Rio+20, a terceira conferência mundial sobre meio ambiente, que trata principalmente sobre a erradicação da pobreza e o desenvolvimento sustentável. Além disso, existe uma gama muito ampla de assuntos sociais que também serão discutidos na conferência, tais como alimentação, consumo consciente, transportes, energia, saúde e megacidades.

Todas essas conferências visaram melhorar os setores energéticos promovendo o uso de fontes renováveis, aperfeiçoar os transportes, proteger florestas e mares, guardar as biodiversidades e os biomas mundiais, limitar as emissões de gases, lutar contra a pobreza e a fome, proteger a saúde humana, administrar racionalmente a tecnologia e biotecnologia, fomentar a educação e garantir um desenvolvimento pensando no melhor às gerações futuras.

 

Transporte sustentável em Amsterdam

 

Duas décadas depois, é a vez de debater sobre todas as mudanças remediadas nesses últimos anos e planejar as mudanças que deverão ser adotadas com o intuito de se obter o desenvolvimento sem comprometer as gerações futuras. Em 20 anos, o avanço tecnológico mudou completamente o comportamento da população. O consumo atingiu recordes históricos e tornamo-nos uma sociedade de geradores de lixo. As desigualdades sociais estão diminuindo nos países desenvolvidos, mas estão crescendo nos países em desenvolvimento, que concentram mais de 80% da população mundial. O derretimento das calotas polares acelerou. Já somos mais de 7 bilhões de poluidores. O planeta terra, então, entrou em uma nova era, o antropoceno, no qual o ambiente passou a ser modificado pelo animal dominante, o ser humano.

Utilização de combustíveis fósseis, aumento do nível dos mares, desastres climáticos, descrença de que a humanidade se uniria para enfrentar o desafio da conscientização geral da população, rivalidades entre as nações emergentes e as mais ricas, miopia dos políticos: tudo contribuiu para fazer acabar o sonho construído na ECO-92.

Em suma, nada mudou desde então. Estados Unidos e China, os maiores poluidores do mundo, ainda continuam boicotando as negociações.

De fato, as conferências contribuíram para disseminar conscientização, porém elas ainda não apresentaram resultados concretos relevantes, porque não existe uma espécie de multa aplicável aos descumpridores das medidas combinadas. Apesar dos vários encontros históricos (Copenhague, Dublin, Quioto, Rio-92, Rio+20 etc.), a realidade é que não sabemos se progredimos ou regredimos.

 

Rio+20 logo

 

A Rio+20 tem papéis históricos extremamente importantes: de nos mostrar que índices piores de aquecimento global são inaceitáveis, que existe um fator evitável de aumento da pobreza, e que é possível existir uma economia sustentável, como já fora provado pela Coréia do Sul após a crise de 2008.

Uma forma concreta para entender alguns dos resultados da ECO-92 que não deram certo foi o de que a população mundial aumentou em 1,5 bilhão de pessoas em 20 anos e a produção de alimentos aumentou em uma escala significativamente maior, porém a eficiência na distribuição não cresceu no mesmo ritmo, aumentando as taxas de fome e morte por falta de alimentos em todo o mundo. Outro fator contraditório é PIB, que cresceu, mas quem recebeu esse crescimento foi uma pequena parcela da população global. Solução: combate às desigualdades. Hoje, metade da população do mundo vive com menos de 2 dólares por dia. Há mais pessoas vivendo na pobreza hoje do que havia há 20 anos trás.

O PIB não é o melhor indicador de riqueza de uma nação. Supondo que um país corte e venda todas as árvores de todas as suas florestas, ele ficará mais rico, porém perderá seus ativos em longo prazo. Para o PIB ser mais preciso, questões ambientais também deveriam ser incluídas nas medições, juntamente com educação e desenvolvimento humano.

Existe um protesto, intitulado ironicamente “Rio + ou – 20”, feito por ex-ministros, políticos brasileiros e economistas, que diz que a Rio+20 irá fracassar. A ONU tem o importante papel de manter a importância da conferência, pois em uma conferência onde todos os assuntos possíveis estão inclusos, até mesmo a crise financeira, fica facilmente possível desviar o foco principal (meio ambiente) a outros assuntos. O fato é que se a temperatura média do planeta subir 4º ou 5ºC, não haverão outros assuntos para serem tratados posteriormente, por mais louváveis que eles sejam.

 

por Gabriel Zago

18 de junho de 2012

 

Referências: Laboratório de Estudos Populacionais da Universidade de Columbia, Nova York

Voto de cabresto no século XXI?

Voto de cabresto é o nome dado a uma forma tradicional de controle político que ocorreu no Brasil no século XX. Ele teve como características principais a compra de votos, o abuso das autoridades no poder e a utilização da máquina pública em larga escala nas eleições. O nome “cabresto” faz alusão à uma espécie de correia utilizada na cabeça de animais ungulados (cavalos, burros, éguas) para amarrá-los ou dirigi-los. Era exatamente o que ocorria com o eleitorado na época do coronelismo.

Os coronéis abusavam de sua autoridade para controlar as eleições dentro de seu “curral eleitoral”. Eles controlavam a população de acordo com seus interesses. Garantiam que a população votasse somente nos candidatos indicados por eles.

 

Século XX, Brasil

 

Século XXI: Democracia? O direito de decisão está realmente nas mãos do povo? Quem vive em países liberais no século XXI tem o direito de escolher em quem votar, certo? O direito as pessoas até têm, porém nem sempre elas votam sem receber influências externas.

Vivemos em uma era onde diferenças religiosas e políticas são dominantes em escala global e geram polêmicas discussões. Os votos hoje em dia são tão controlados quanto eram no passado? É claro que as eleições no Brasil de hoje não são fraudadas como ocorria antigamente, mas elas são explicitamente influenciadas indiretamente pela mídia e por outros meios de comunicação.

Jornais, revistas, canais de televisão, programas de TV, atores e escritores estão cada vez mais influenciando as pessoas em decisões políticas. Não adianta um canal de televisão promover um debate às vésperas de uma eleição, sendo que após esse debate ele favorecerá um determinado candidato em notícias positivas e até mesmo pelo uso de blogs ou comunidades.

Não é o governo quem quer pessoas ignorantes para poder controlá-las, é uma grande parte da mídia. Fica fácil fazer com que alguém vote em um determinado candidato apenas por citar suas benfeitorias em uma novela que 70% da população (sem senso crítico) assiste e se deixa influenciar por lindas e ‘barraqueiras’ atrizes e então copia o que elas fazem na vida real. Essa mesma parcela facilmente influenciável da população é justamente a parcela que se diz ser o contrário. São essas mesmas pessoas que discutem se Comunismo ou Capitalismo é melhor e se acham as revolucionárias por defenderem fortemente seus pontos de vista influenciados anteriormente por alguém.

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Fatos são fatos. Contra eles não existem discussões. Isso é um fato:

Atualmente, o governo investe cerca de 6% do PIB em educação. O governo brasileiro gasta em média 4 mil reais mensais com cada PRESIDIÁRIO, enquanto investe cerca de 1 mil reais mensais com ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS. O Brasil gasta 4 vezes mais com bandidos (ladrões, assassinos, estupradores) do que com estudantes que contribuem para o pregresso das ciências. Existe uma distância ainda maior quando comparados os gastos com presidiários e estudantes de ensino médio: o governo gasta 9 vezes mais com presidiários. O que houve com o velho chavão: “educação é a chave para o progresso”? Ele já foi usado inúmeras vezes por ministros, deputados e senadores no Brasil. Investir 6% do produto interno bruto em educação é mesmo um progresso. Países como a Austrália, que tem um dos menores índices de analfabetização do mundo (menos de 1% da população), gastam 7 vezes mais por aluno do que o Brasil. O Brasil tem mais de 10% da população analfabeta. Comparando os gastos do Brasil e da Austrália em educação, temos:

  • BRASIL (7º economia do mundo): 190 milhões de habitantes, PIB de 2 trilhões de dólares. Gasta 11,4 bilhões de dólares em educação (60 dólares gastos em educação / habitante).
  • AUSTRÁLIA (13º economia do mundo): 23 milhões de habitantes (12% da população brasileira), PIB de 1 trilhão de dólares (50% do PIB brasileiro). Gasta 10 bilhões de dólares em educação (435 dólares gastos em educação / habitante).

BRASIL, um país de contrariedades7º maior economia do mundo vs. 75º maior per capital do mundo vs. 95º maior taxa de alfabetização do mundo vs. 84º maior IDH do mundo vs. 5,6 no índice de Gini (indicador de desigualdades sociais medido de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade entre a população).

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É fácil ver onde está ‘enfiada’ toda essa “7ª maior economia do mundo”: em desigualdades na distribuição de renda entre a população. A ONU (Organização das Nações Unidas) divulgou, em 2010, que o Brasil só perdia para a Bolívia e para o Haiti na diferença entre ricos e pobres. Além disso, a ONU também afirmou que o Brasil possuía uma “baixa mobilidade social”. Esse modelo de vida norte americano que estamos conservando desde 1930 e que nos disse que deveríamos ser uma nação simpatizante ao Capitalismo (abuso na propriedade privada gera grandes diferenças sociais), agora nos rotula e critica como sendo um dos países com a maior taxa de desigualdade social do planeta? Existe, novamente, uma contrariedade nessa história.

O GOVERNO AINDA NÃO PERCEBEU QUE GASTAR 9 VEZES MAIS DINHEIRO EM SEGURANÇA DO QUE EM EDUCAÇÃO NÃO ESTÁ DANDO CERTO? O que mais vemos é falta de segurança nas ruas e até mesmo dentro de nossas casas. Não estamos seguros em lugar nenhum. O que pode fazer a diferença é difundir cultura e educação de verdade principalmente em regiões carentes do país, onde existe uma maior probabilidade de uma pessoa se tornar criminosa ao invés de um professor, por exemplo. Totalmente ausente de preconceitos.

Não deixo como conclusão para este post um incentivo às pessoas para que tenham voz ativa em assuntos políticos porque tenho certeza de que isso nunca aconteceria. As únicas coisas que peço são que, primeiramente, as pessoas não vejam a Política como algo chato ou inútil (como ocorre atualmente), mas como algo que foi base para o desenvolvimento da sociedade e que, sem ela, o mundo não seria como qual o conhecemos. E que, também, as pessoas não culpem completamente o governo por terem total falta de informação (é certo que o governo nos priva muito de uma boa educação) mas que ao invés de reclamarem sobre o sistema sem fazerem nada a respeito de buscarem uma melhora, que elas desliguem a TV da novela e vão ler um bom livro.

 

por Gabriel Zago

04 de maio de 2012