A (in)eficiência do transporte público

Além da educação, saúde, segurança pública, saneamento básico, do abismo separando ricos e pobres, das questões da terra, da energia, da poluição, da falta de planejamento no desenvolvimento das metrópoles, do problema da iluminação, das constantes greves em mais de 40 setores que o governo federal vêm enfrentando, da crise econômica, das políticas públicas, da questão das moradias, de mais de 50 universidades públicas que atingiram uma greve de duração recorde na história do ensino superior brasileiro, do desmatamento, das ineficientes políticas de desenvolvimento universitário, do atraso nas obras para a Copa do Mundo de 2014, do crescente desemprego, da justiça, do abandono das infraestruturas públicas, dos elevados impostos, da alta evasão escolar, do estagnado analfabetismo funcional… Ufa! A lista de problemas econômicos, políticos e sociais é imensa e não para por aí. Um novo problema surge e merece grande destaque: a dificuldade de locomoção nos grandes centros urbanos.

A população das grandes cidades brasileiras cresce todos os dias, porém as melhoras do transporte público não crescem no mesmo ritmo. Resultado: mais carros nas ruas. É intuitivo que muitos carros nas ruas provocam trânsito, que gera poluição, que causa danos à saúde, como doenças respiratórias, câncer e estresse. De acordo com uma recente pesquisa feita em São Paulo pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceira com a USP e Harvard, as últimas “medidas adotadas pelo poder público para melhorar o ar da capital paulista até agora foram importantes, porém não suficientes para evitar problemas de saúde. Apesar de a poluição ter diminuído, o número de veículos nas ruas está crescendo.”

 

Congestionamento em SP próximo ao Parque do Ibirapuera e a antiga sede do Detran-SP

 

A metrópole de São Paulo tem uma taxa de crescimento populacional anual de 1,2%, segundo o IBGE. Quer dizer que, a cada ano, a população aumenta 250 mil habitantes. Não se impressionou? Ao acompanhar o mesmo ritmo de crescimento, em 10 anos serão 2,5 novos milhões de habitantes, que corresponderão a 9% da população paulistana para o ano. Em 2022, 9% da população de São Paulo foi incluída na cidade nos últimos 10 anos. Para uma cidade que levou mais de 450 anos para atingir a marca de 20 milhões de pessoas, esse número é espantoso.

As comparações do sistema metroviário de Nova York com o de São Paulo são assustadoramente desiguais. São Paulo foi fundada 70 anos antes que Nova York e possui 7 vezes menos metrô. Veja outras comparações:

Comparações entre o metrô de NY e o de SP:

  • Nova York, EUA

388 anos (SP é 70 anos mais velha)

370 km de metrô (5 vezes mais que SP)

468 estações (7 vezes mais que SP)

780 km² de área (metade de SP)

18 milhões de habitantes na metrópole (2 milhões a menos que SP)

1,4 bilhão de pessoas usam o metrô por ano (300 milhões a mais que SP)

3,8 milhões de pessoas / km² de metrô / ano (4 vezes mais vazio que SP)

  • São Paulo, Brasil

458 anos (70 anos mais velha que NY)

74 km de metrô (5 vezes menos que NY)

64 estações (7 vezes menos que NY)

1 600 km² de área (2 vezes NY)

20 milhões de habitantes na metrópole (2 milhões a mais que NY)

1,1 bilhão de pessoas usa o metrô por ano (consideráveis 300 milhões menos que NY)

14,8 milhões de pessoas / km² de metrô / ano (4 vezes mais lotado que NY)

O metrô paulistano é mais lotado do mundo, de acordo com uma matéria publicada pelo jornal Folha de S. Paulo no fim de 2011. Pela comparação feita acima, é possível concluir que o metrô da capital paulista é 4 vezes mais lotado que o metrô da “capital do mundo”. A linha 4 (amarela) em São Paulo, a mais moderna da megacidade brasileira, que funciona com apenas 6 das 11 estações ainda em construção e um número muito reduzido de trens supermodernos e sem condutor, responde por cambaleantes 50% de sua eficiência total e já apresentou resultados espantosos de superlotação após sua longa fase de testes. Já ouvi pessoas no metrô se referindo à superlotação nos horários de pico como “o inferno de todo dia”.

 

 

Outro fato que vale a pena ser comentado pela oportunidade de expôr tal assunto no blog é o do dia mundial sem carro, que aconteceu há alguns dias. Enquanto houver políticas públicas de incentivo ao uso do automóvel (IPI reduzido, entre outras), o dia mundial do carro será congestionado. Não adianta a prefeitura de São Paulo criar ciclofaixas que funcionam aos domingos em vários locais da cidade, sem promover o uso do transporte público durante a semana. É certo que o objetivo da ciclofaixa no domingo não é aliviar o trânsito, mas sim promover lazer para os paulistanos, porém, é de grande contradição, o domingo ser superior ao sábado nos números de congestionamento. A prefeitura criou a ciclofaixa em várias importantes avenidas da cidade e, algumas delas, cedem metade do seu espaço para as bicicletas e a outra metade para os automóveis. Em dias de chuva, não se observa um ciclista nas duas faixas destinadas à ciclofaixa na ponte Cidade Universitária, mas, em réplica, vê-se apenas três faixas destinadas aos carros e um trânsito infernal atingindo a marginal Pinheiros. Falha no planejamento. O jornal Folha de S. Paulo publicou, no dia 22 de setembro de 2012, a seguinte matéria: No Dia Mundial Sem Carro, SP tem lentidão e ciclofaixa quase vazia.

É hora de a população se unir, reclamar mudanças e aproveitar o ano de eleição para exigir dos candidatos solução para problemas de trânsito nas grandes capitais brasileiras.

Termino a coluna com uma autêntica citação das questões do transporte: “Cidade desenvolvida não é aquela onde os pobres têm carro, é aquela onde os ricos usam o transporte público.”

 

por Gabriel Zago

25 de setembro de 2012

 

Referências: Unifesp, IBGE, CPTM e Folha de São Paulo

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Era dos compartilhamentos?

Facebook

 

Na transição da Idade Média para a Idade Moderna especulava-se que o homem, até então, atingira seu auge de perfeição, desenvolvimento científico e social; pois era impossível maior desenvolvimento para os viventes de tal época.

O progresso alçado na Idade Contemporânea mostrou que o homem nunca para de se desenvolver, tanto quanto animal, como ser social; a não ser que seja impedido. Aquilo onde vivemos hoje é resultado da combinação de diversos fatos e influências de tudo o que deixamos para trás pela construção da história humana. Porém, aquilo que somos hoje prova não ser resultado da busca incessante por conhecimento provinda do passado. Em outras palavras, é afirmável que os ensaios de grandes períodos históricos de evolução, descobrimento, inovação e invenção, fizeram com que a sociedade atual atingisse elevados níveis de sofisticação e tecnologia; porém é atestado que mesmo convivente a tamanha admirável tecnológica e perfeição na interação social, o homem contemporâneo não dispõe de proporcional grau de intelectualidade.

Desenvolvimento gera melhoras, correto? Deveria estar correto. Atingimos o grau máximo de esplêndida tecnologia, o que era de se esperar depois de 50 mil anos de existência do homem moderno (para a Biologia) disponíveis para desenvolver, mas os níveis gerais de inteligência não cresceram no mesmo ritmo. Moldamos os padrões e estruturas tecnológicas que não têm mais como serem melhorados. Uma coisa ou outra pode mudar, mas o “grosso” da tecnologia já se aperfeiçoou ao máximo. É certo que hoje temos outra visão de mundo, porém tratando de conhecimento bruto, quem vivia na Idade Média tinha mais conhecimento do que quem vive nos dias de hoje, incluindo a dificuldade de acesso ao mesmo da Idade Média. Talvez as pessoas que viviam na Idade Média era mais inteligentes do que as que vivem hoje por conta da dificuldade de acesso à informação; o que despertou maior interesse… Com a internet, hoje é possível a existência de milhares de Einsteins pelo mundo, porém muitas das pessoas com padrões de compreensão e atenção elevados (que seriam extraordinários se conservados e estimulados) desperdiçam a maior parte de seu tempo compartilhando opiniões iniciadas por outras em redes sociais, sendo que poderiam estar criando suas próprias opiniões e difundindo-as com outros pensantes.

O homem, além de alienado pela mídia, não é mais capaz de ter suas próprias idéias. A internet, a mídia e os governos o fazem acreditar que ele é pensante. As pessoas não criam mais o ponto de partida para algum ideal, elas compartilham idéias existentes, pré-definidas ou feitas por outras pessoas.

Uma pesquisa divulgada, em 2010 pelo Instituto Nielsen do Brasil, diz que mais de 85% dos brasileiros acessam redes sociais. Quase 1 bilhão de pessoas no mundo acessam o Facebook. 500 milhões usam o Twitter (incluindo apenas  contas ativas). Somando Orkut, MySpace e Badoo, o número de usuários globais atinge consideráveis 240 milhões. Também em 2010, foi divulgado que apenas 25% da população mundial tinha acesso à computadores (1,5 bilhão de pessoas para a população da época). Destes, mais de 80% usam redes sociais.

A pluralidade de pessoas que usa redes sociais é tão elevada que altera a capacidade delas de se expressar sem receber influências. O vocabulário das pessoas também diminuiu. Além de não terem mais opiniões próprias, os viventes de hoje compartilham até mesmo um simples “bom dia” no Facebook. Ao analisar a “linha do tempo” de publicações no Facebook em seu horário mais agitado (entre 19 e 21hs), notei que das 50 primeiras atualizações que contei, 44 eram compartilhamentos de fotos, frases, vídeos, aplicativos e outras coisas. Quer tirar sua conclusão? Olhe a página inicial do Facebook e conte quantos compartilhamentos você vê. Novamente: ninguém mais publica opiniões próprias, visto que é mais fácil “curtir” as que estão disponíveis e “compartilhar” as consideradas interessantes por esta população com baixo vocabulário e desinteresse em leitura.

É verdadeiramente lamentável que depois de tanto progresso feito por conjuntos de pessoas pioneiras em toda a história, vivamos e caminhamos em direção, cada vez mais acelerada, ao regresso social, ao iletrismo e à insciência.

Mobilização!

 

por Gabriel Zago

23 de agosto de 2012

ENQUETE #2: Cotas nas universidades federais

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ENQUETE #1: Greve dos docentes federais

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Por que a mídia não fala sobre a greve nas universidades federais?

Os 3 meses de greve das instituições federais se tornam cada vez mais invisíveis. Enquanto os assuntos mais comentados da mídia brasileira atingem uma população desinteressada por Educação (sim, totalmente desinteressada por Educação) e que prefere saber sobre Olimpíadas ou sobre a vida pessoal de pessoas famosas, mais de 50 universidades e institutos federais permanecem em greve e sem nenhum aparente avanço nas negociações.

 

Por que a Globo não fala sobre a greve dos professores das universidades federais?

 

A realidade mostra que mais de 90% da população não sabe que 80% das universidades do país estão em greve, mas sabe de cor todas as falas de uma novela disseminadora de pessoas sem opinião, brutas, vulgares, vingativas e cada vez mais fúteis e estúpidas.

Ao invés de exclamarem a necessidade de revolta populacional por conta da educação precária, ironicamente é muito mais fácil as pessoas ficarem no conforto de seus queridos lares sem perderem um capítulo de uma novela irrisória e que não pode oferecer nada a elas, salvo de pessoas cada vez mais ignorantes e que têm TODA a sua educação provinda da televisão.

 

 

Não chega a 15% o número de brasileiros que têm diploma universitario, cursam ou cursarão o ensino superior em até 3 anos. Mas os números são ainda mais críticos quando mostrados que destes mesmos 15%, quase 40% não dominam as necessidades básicas de leitura e escrita e outros 40% tiveram ou terão um ensino superior de qualidade ruim a regular. Dos 20% que se escapam dessa verdade, que equivalem a pouco mais de 5 milhões de pessoas, quase 80% vieram de universidades públicas. Status atual das universidades públicas: greve que ultrapassa 3 meses e sem previsão para retorno, visto que ”o Ministério da Educação anunciou o encerramento das negociações, pois a Copa do Mundo se encontra em previlégio agora”.

 

O vídeo abaixo mostra as promessas de Dilma Rousseff relacionadas a Educação antes das eleições, porém a realidade diz que seu governo está caminhando no sentido oposto ao que antes pregava:

DILMA ROUSSEFF: “Se não houver pagamento digno para professor, não há valorização pela sociedade da profissão de professor. Então, não há como, no Brasil, se fazer qualidade da educação sem pagar bem o professor. Nós começamos fazendo o piso nacional do magistério e elevando o salário para R$1.024. É pouco? É pouco. Porque o professor pra ser valorizado, ele precisa de ganhar bem. E mais: ele precisa de ter formação continuada. Não se pode, também, estabelecer com o professor uma relação de atrito quando o professor pede melhores salários, recebê-los com cassetetes ou interromper o diálogo.O diálogo é fundamental no respeito a essa profissão. E o Brasil só irá sair de uma situação de país emergente pra uma situação de país desenvolvido se a gente assegurar qualidade de educação pra nossos filhos e pra nossas crianças. Então, pra gente falar em creche, pra gente falar em educação básica, ensino fundamental, nós precisamos ter professores bem formados e ter professores bem pagos. Aí, a sua filha vai ficar orgulhosa; seus filhos vão ficar orgulhosos: ‘olha, eu sou professora e sou reconhecida socialmente’. Por isso que eu farei da campanha pra pagamento de salários dos professores uma das questões fundamentais do meu governo. Pagar bem o professor é o grande desafio que nós temos nos próximos anos pra além de qualquer outra coisa…”

 

 

O Andes (sindicato da greve) afirma que a situação está tão crítica nas universidades federais que até chega a faltar papel higiênico nos banheiros dos campi. O governo Dilma, que antes tinha como maior interesse a Educação, mostra estar longe da meta anterior à campanha provando que a realidade é outra.

Os instrumentos de comunicação como a TV aberta, que predomina em quase 70% dos domicílios que possuem aparelho de televisão no país (96% dos domicílios brasileiros possuem aparelho de televisão de acordo com dados da National Geographic Society) não comentam absolutamente nada a respeito da greve dos docentes das universidades federais porque a maioria dos canais abertos é aliada ao governo federal e está impedida de manchar sua imagem de “Brasil, um país para todos”. Além dos canais aliados, existem os não-aliados, aqueles que DIZEM pregar o jornalismo sério que SEMPRE explicita todos os lados das informações; mas apenas dizem.

 

 

As pessoas que não sabem o que realmente ocorre por trás das imagens falsas e obscuras que a mídia sazonalmente expõe dizem que os professores são gananciosos ao lutarem por melhores salários (a média de sálario da PM é maior que a média federal dos docentes) e que os sindicatos “só servem para atrapalhar”. Mas estas pessoas não sabem que os seus antepassados lutaram desde 1930 pelo direto da democracia e que o direito de greve foi uma das maiores conquistas democráticas depois do Regime Militar e que sem a presença dos sindicatos nada seria como tal é hoje. Essa fluência de informações abstratas e distorcidas que circulam na boca do povo, vêm da falta de interesse deles em saber o que realmente ocorre. “O limite da ignorância é quando alguém opina sobre algo sem saber nada a respeito do que está falando”.

É inequívoco e indiscutível que a mídia quer pessoas estultas para ter facilidade em manejá-las. É inconveniente para a imprensa evidenciar manifestações em prol de uma melhor educação superior porque estaria fugindo de seu encargo perante o governo em mostrar a insatisfação das pessoas com a gestão. Além do mais, se a população exige ensino superior de qualidade, não seria do interesse da mídia mostrar que isso ocorre, pois assim ela perderia as pessoas estúpidas que assistem a sujidade de seus programas de fim de domingo e a frivolidade de suas novelas de horário nobre.

 

 

Para demonstrar que realmente prega jornalismo, a mídia fala pouco sobre a greve das universidades nos jornais e na internet, porém majoritariamente quem lê jornais e utiliza a internet para bons fins são justamente as pessoas desconvencidas pela mídia, o que não leva a nada, pois o alvo central para a diminuição dos níveis de ignorância das população fica mais longe de ser alcançado porque quem realmente precisa saber da ineficiência do governo apenas têm acesso a TV aberta; que foi exposto anteriormente seus interesses. Quando a mídia raramente comenta sobre a greve, fala que os grevistas são vândalos, mas não mostra o porquê das manifestações.  Os caminhoneiros, cuja greve não dura 2 semanas foram visivelmente mais comentados do que a greve docente, ganhando capas de revistas alienadoras, páginas principais de jornais, além de teasers demorados em telejornais.

Há vários lutantes na internet exigindo da mídia uma transparência de assuntos como esses, porém esses gritos de democracia não estão alcançando o efeito desejado. Falta uma mídia transparente e inteiramente voltada em levar a verdade desprovida de interesses às pessoas. Isso sim é jornalismo.

 

 

 

O que falta ao povo, e provado por esta coluna que também ao governo, é entender que progresso não são cidades desenvolvidas, não é todos terem casa ou carro próprios, não é polícia nas ruas, não é emprego para todos, mas sim EDUCAÇÃO. É possível dizer com a maior convicção do mundo que isso é progresso. Educação é progresso. Uma vez de qualidade, se transforma em progresso. E uma vez alcançada uma excelente Educação, não existe regresso; diferentemente de outras esferas políticas e econômicas.

Mas sobra dizer que o resultado das inúmeras manifestações e a pouca informação sobres estas só levou, em 3 meses, ao fortalecimento da idéia da divisão e da inferioridade, visto que o governo federal ignora por completo a greve docente federal.

 

por Gabriel Zago

13 de agosto de 2012

Dossiê universitário: o dilema do ensino superior brasileiro

Pelo mundo, universidades de países em desenvolvimento estão cada vez mais se aproximando das universidades mais prestigiadas do planeta. Este é um esperançoso e animador sinal. Rapidamente, universidades do Terceiro Mundo estão tomando os lugares das universidades do Primeiro Mundo nos top 100 mundiais.

 

Harvard University

 

O fato de as ciências estarem se desenvolvendo nas áreas mais elitizadas educacionalmente da sociedade não quer dizer que o ensino universitário geral se desenvolve no mesmo ritmo. É indiscutível o fato de que universidades públicas são os melhores institutos de um país, pois propagam conhecimento, seres pensantes e críticos, pesquisas e desenvolvimentos em diversas áreas do conhecimento; mas elas só podem manter seu grau máximo de eficiência quando valorizadas pelo governo e pela população. Por trazerem tantos benefícios à humanidade, elas deveriam ser preservadas e zeladas com máxima eficiência, a fim de que nunca parem suas atividades, e sejam sempre reconhecidas como o centro de todo um sistema político, a responsável importância de tudo o que ocorre na sociedade.

São elas, as precursoras, fundadas primeiramente pela Igreja Católica Apostólica Romana no século XII, que são as segundas instituições mais antigas do mundo, as bases da civilização ocidental. “É grave calúnia dizer que a Igreja tinha o interesse em manter o povo na ignorância para dominá-lo; os fatos mostram o contrário; e contra fatos não há argumentos”. A Igreja Católica foi a mãe das universidades. Sobre a questão da ignorância, René Taton disse que a ”Igreja Católica, na Idade Média, quando surgiram as universidades, salvou e estimulou muito mais do que freou ou desviou. Por isto, embora só queira apelar para a Antiguidade, a Renascença é realmente a filha ingrata da Idade Média”. Retomo o assunto posteriormente.

A história garantiu que a melhor forma de se obter funcionalidade em um determinado setor cambaleante, é pelo meio de greves e manifestações conjuntas de pessoas com a meta de atingirem o mesmo interesse. Enquanto no resto do mundo as universidades progridem, no Brasil enfrentamos o colapso de um sistema pechoso.

 

Greve

 

No primeiro semestre de 2012, por todo o país, a greve das universidades federais exibe, cada vez mais, o resultado de uma estratégia falha de um governo mal planejado, que decidiu construir inúmeras universidades por todo o país a fim de levar “desenvolvimento” às áreas privadas do mesmo, e com a ganância de provar que fora o melhor governo da história brasileira ganhando o título de o governo que mais construiu universidades em menos tempo.

É certo e incontestante que universidades realmente transbordam conhecimento, quando bem administradas. Construir universidades em estados onde não existe público para usufruí-las, ou então, construir campi de universidades prestigiadas em grandes centros para serem abandonados em curto prazo por falta de verbas, docentes ou infraestrutura adequada, como ocorre na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desde 2009 (governo Lula), nada mais é que um disperdício de verbas públicas. Em outras palavras, não adianta o governo expandir a abrangência do ensino superior construindo diversos novos campi em todo o país, sendo que em pouco tempo abandona completamente estes campi.

Sobre os fatos: o governo Lula criou um projeto de expansão para a Unifesp. Em 2007, o campus da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Unifesp (EFLCH-Unifesp) foi instituído, porém hoje o campus está sucateado. Os estudantes estão tendo aulas em uma creche nas proximidades do campus por falta de espaço no mesmo, enquanto sofrem com outros problemas, como falta de bandejão universitário, transporte e péssima infraestrutura do campus, além da falta de professores. Alguns dos problemas citados, também ocorrem em outros campi, como o de Santos, que recentemente teve o prédio interditado devido à queda de uma parte do teto de um dos prédios da universidade, e também na Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Unifesp (EPPEN-Unifesp), criada em 2011, onde os alunos sofrem com a falta de professores. Do outro lado da gangorra, uma mídia manipuladora e altamente alienadora se refere aos estudantes como vândalos e baderneiros e não explica em seus noticiários o porquê dos protestos, enquanto convence facilmente uma população inteira a ver os discentes como desinteressados e os docentes, que ganham atualmente menos que piso nacional, como gananciosos por quererem um aumento salarial digno de sua condição e um plano de carreira melhor elaborado.

Em protesto pacífico na porta da reitoria em São Paulo, em maio de 2012, estudantes da Unifesp foram recebidos com a tropa de choque. É incrível o que nossos antepassados fizeram para que hoje pudéssemos ter o direito de manifestar, e não podemos nem fazê-lo de forma digna e pacífica para garantir nossos direitos. O movimento estudantil de 2012 continua sendo reprimido como era durante o Regime Militar. Cadê a polícia atrás dos ladrões? Ela está ocupada impedindo a manifestação de estudantes. Além dos protestos de 2012, também houveram protestos em 2010 e 2011 na Unifesp.

 

 

Além da Universidade Federal de São Paulo, diversos outros centros de excelência em ensino superior sofrem com carências. Citando brevemente outras instituições que enfrentam os mesmos problemas da Unifesp, além de outros piores, há a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), entre outras.

A greve dos docentes de 2012 é uma bolha que veio crescendo há alguns anos e entrou em colapso quando atingiu seu ponto crítico.

Enquanto o governo federal libera desenfreadamente verbas para a Copa do Mundo de 2014 e vê menos de 10% das obras concluídas, se o mesmo dinheiro fosse gasto no combate ao ensino superior público capenga do país, os resultados seriam muito mais aparentes.

No embalo da greve docente, há a exigência de 10% do PIB para educação, juntamente com outras; e o ministro da educação do governo Dilma, Aloísio Mercadante, dizendo que “não vê o porquê de uma greve desse porte”. Está mais do que claro que o governo não se importa por 90% das universidades estarem em greve no país (quase 60 universidades) e quase 2 milhões de estudantes estarem prejudicados por mais de 3 meses sem aulas.

 

 

Mesmo o ensino superior público se encontrando em um estágio crítico, ele não perdeu e nunca perderá seu prestígio, sempre permanecendo a frente de instituições privadas nas pesquisas nacionais e internacionais, como a Times Higher Education e a Universidade de Shanghai.

O ensino privado se tornou comércio. Todos os dias, novas universidades, logicamente privadas, abrem suas portas para venderem seus diplomas. Universidades privadas de qualidade ainda existem. Uma pesquisa divulgada em 13 de junho de 2012 pela consultoria britânica Quacquarelli Symonds (QS), revelou que das 10 melhores universidades do Brasil, 8 são de domínio público: USP (pública), Unicamp (pública), Unifesp (pública), UFRJ (pública), UFMG (pública), UFRGS (pública), Unesp (pública), UnB (pública), PUC-Rio (privada) e PUC-SP (privada). O mais preocupante é que, das 10 melhores universidades do Brasil, metade se encontra em estado de greve.

Além dos dados apresentados no artigo presente, o Instituto Paulo Montenegro (IPM), vinculado ao IBOPE, revelou que 38% dos estudantes do ensino superior não dominam as habilidades básicas de leitura e escrita, segundo o Indicador de Analfabetismo Funcional. O indicador reflete o expressivo crescimento de universidades de baixa qualidade, todas da rede privada de ensino. Segundo a diretora do IPM, Ana Lúcia Lima, o aumento da escolarização não foi suficiente para garantir aos alunos os domínios básicos de leitura e escrita, sendo reforçada a necessidade de investimentos na qualidade do ensino. Apesar do fato de 38% dos universitários não dominarem as habilidades básicas de escrita e leitura, o governo obriga as universidades federais a mantarem 50% de suas vagas para estudantes provindos da rede pública de ensino. Isso faria o prestígio das universidades diminuir? Não existe outra falha no planejamento nessa futura lei?

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 30 milhões de estudantes ingressaram no ensino superior entre 2000 e 2009. “Algumas universidades só pegam a nata e outras se adaptaram ao público menos qualificado por uma questão de sobrevivência”, comenta Ana Lúcia, se referindo ao crescente aumento do número de instituições privadas de ensino superior.

As universidades que não são dirigidas para a elite por, principalmente, não cobrarem um alto valor em troca de um excelente ensino, como o caso da Universidade Paulista (UNIP), se mantém pelo marketing, adaptando seu foco ao público menos qualificado. Recentemente, após denúncias de fraude, a UNIP foi acusada de ter selecionado os seus melhores alunos para fazerem o Enade, exame nacional que avalia o desempenho dos alunos dos cursos de graduação, e, dessa forma, elevar o índice da instituição e utilizá-lo como estratégia de marketing.

Nos resultados do Enade de 2011, quase 40% das instituições ficaram abaixo da média, majoritariamente privadas, enquanto as melhores instituições do país foram as universidades federais, recebendo elogios de Fernando Haddad. “A qualidade está nas federais. As melhores instituições de ensino superior do país são federais”, disse. Liderando as universidades federais, apareceu a Unifesp, seguida pela UFRGS, UFMG, UFRJ e ITA.

Em suma, sempre é tempo de novos investimentos no setor educacional, principalmente o superior privado crítico, que tem como clientes a maior parta da população no ensino superior; o que poderia ser feito em parcerias com empresas também privadas. É inegável que o setor educacional como um todo, que ainda sofre de tantas carências, precisa de uma população maior empenhada em mobilidade, porque educação é um direito básico a qualquer cidadão, que deve ser garantido pelo Estado.

“Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda”. A frase de Paulo Freire nos leva a um ciclo vicioso em que a população, privada de um bom ensino, é, em sua maioria, ignorante demais para entender que é preciso lutar por um melhor ensino e que é incapaz de transformar a educação; o que, por sua vez, fica incapaz de transformar a sociedade.

 

por Gabriel Zago

23 de julho de 2012

 

Referências:  Jornal O Estado de S. Paulo, Prof. Dr. Felipe Aquino (Unesp, ITA, USP), Dr. Thomas Woods (PhD de Harvard, 2005), René Taton, Quacquarelli Symonds, IPM-IBOPE, IBGE.

Realidades da ECO-92 e esperanças da Rio+20

Depois de 20 anos, ocorre a terceira conferência mundial sobre as questões sócio-ambientais. Quais foram as mudanças que, de fato, ocorreram no contexto global entre esses 20 anos?

A Conferência Rio-92, ou ECO-92, fez com que o termo “desenvolvimento sustentável” se tornasse comum e preocupante ao mesmo tempo, tratando-se de alcançar metas econômicas sem comprometer o meio ambiente e a sociedade civil. Quais foram as feitorias do estabelecimento da ECO-92 e da adoção da Agenda 21? Elas se tornaram reais? Qual é a realidade global atual que traça os caminhos que deverão ser adotados pelas Nações Unidas em garantir o máximo sucesso da Rio+20?

 

Bandeiras dos países membros da ONU em Nova York

 

Em 1972, a Conferência de Estocolmo deu o primeiro alerta global sobre as questões ambientais, sendo a primeira conferência da história com o objetivo de organizar as relações entre homem e meio ambiente. Os recursos naturais que, até então, pareciam inesgotáveis aos olhos do mundo capitalista começaram a entrar em estado de atenção. Várias mudanças na natureza começaram a ser observadas, como a diminuição do volume de rios e lagos, o aumento na taxa de inversão térmica nas grandes cidades, a chuva ácida, e começou a se falar das conseqüências da industrialização mais do que nunca havia sido dito em nenhum momento da história contemporânea. A ONU entrou em cena, criando a Conferência de Estocolmo, com o intuindo de voltar os olhos dos países mais ricos à preocupação com as questões ambientais. Mais de 100 países e 400 ONGs expuseram suas idéias na conferência.

Vinte anos depois, no Rio de Janeiro, ocorreu a conferência ECO-92. As duas principais marcas dessa conferência foram (1) a criação do termo “desenvolvimento sustentável” e (2) a elaboração da Agenda 21, que consistia no compromisso de cada país em crescer, de todas as formas possíveis, garantindo harmonia entre homem e ambiente e, além disso, promovendo um desenvolvimento econômico-social das esferas menos favorecidas das populações de cada país. A ECO-92 também propiciou campo para o surgimento do Protocolo de Quioto, em 1997, com o objetivo de levar os países à redução da emissão de gases estufa. Dez anos após a ECO-92, ocorreu a Conferência de Joanesburgo, que foi voltada apenas às causas sociais.

O ano de 2012 marca a vez da Rio+20, a terceira conferência mundial sobre meio ambiente, que trata principalmente sobre a erradicação da pobreza e o desenvolvimento sustentável. Além disso, existe uma gama muito ampla de assuntos sociais que também serão discutidos na conferência, tais como alimentação, consumo consciente, transportes, energia, saúde e megacidades.

Todas essas conferências visaram melhorar os setores energéticos promovendo o uso de fontes renováveis, aperfeiçoar os transportes, proteger florestas e mares, guardar as biodiversidades e os biomas mundiais, limitar as emissões de gases, lutar contra a pobreza e a fome, proteger a saúde humana, administrar racionalmente a tecnologia e biotecnologia, fomentar a educação e garantir um desenvolvimento pensando no melhor às gerações futuras.

 

Transporte sustentável em Amsterdam

 

Duas décadas depois, é a vez de debater sobre todas as mudanças remediadas nesses últimos anos e planejar as mudanças que deverão ser adotadas com o intuito de se obter o desenvolvimento sem comprometer as gerações futuras. Em 20 anos, o avanço tecnológico mudou completamente o comportamento da população. O consumo atingiu recordes históricos e tornamo-nos uma sociedade de geradores de lixo. As desigualdades sociais estão diminuindo nos países desenvolvidos, mas estão crescendo nos países em desenvolvimento, que concentram mais de 80% da população mundial. O derretimento das calotas polares acelerou. Já somos mais de 7 bilhões de poluidores. O planeta terra, então, entrou em uma nova era, o antropoceno, no qual o ambiente passou a ser modificado pelo animal dominante, o ser humano.

Utilização de combustíveis fósseis, aumento do nível dos mares, desastres climáticos, descrença de que a humanidade se uniria para enfrentar o desafio da conscientização geral da população, rivalidades entre as nações emergentes e as mais ricas, miopia dos políticos: tudo contribuiu para fazer acabar o sonho construído na ECO-92.

Em suma, nada mudou desde então. Estados Unidos e China, os maiores poluidores do mundo, ainda continuam boicotando as negociações.

De fato, as conferências contribuíram para disseminar conscientização, porém elas ainda não apresentaram resultados concretos relevantes, porque não existe uma espécie de multa aplicável aos descumpridores das medidas combinadas. Apesar dos vários encontros históricos (Copenhague, Dublin, Quioto, Rio-92, Rio+20 etc.), a realidade é que não sabemos se progredimos ou regredimos.

 

Rio+20 logo

 

A Rio+20 tem papéis históricos extremamente importantes: de nos mostrar que índices piores de aquecimento global são inaceitáveis, que existe um fator evitável de aumento da pobreza, e que é possível existir uma economia sustentável, como já fora provado pela Coréia do Sul após a crise de 2008.

Uma forma concreta para entender alguns dos resultados da ECO-92 que não deram certo foi o de que a população mundial aumentou em 1,5 bilhão de pessoas em 20 anos e a produção de alimentos aumentou em uma escala significativamente maior, porém a eficiência na distribuição não cresceu no mesmo ritmo, aumentando as taxas de fome e morte por falta de alimentos em todo o mundo. Outro fator contraditório é PIB, que cresceu, mas quem recebeu esse crescimento foi uma pequena parcela da população global. Solução: combate às desigualdades. Hoje, metade da população do mundo vive com menos de 2 dólares por dia. Há mais pessoas vivendo na pobreza hoje do que havia há 20 anos trás.

O PIB não é o melhor indicador de riqueza de uma nação. Supondo que um país corte e venda todas as árvores de todas as suas florestas, ele ficará mais rico, porém perderá seus ativos em longo prazo. Para o PIB ser mais preciso, questões ambientais também deveriam ser incluídas nas medições, juntamente com educação e desenvolvimento humano.

Existe um protesto, intitulado ironicamente “Rio + ou – 20”, feito por ex-ministros, políticos brasileiros e economistas, que diz que a Rio+20 irá fracassar. A ONU tem o importante papel de manter a importância da conferência, pois em uma conferência onde todos os assuntos possíveis estão inclusos, até mesmo a crise financeira, fica facilmente possível desviar o foco principal (meio ambiente) a outros assuntos. O fato é que se a temperatura média do planeta subir 4º ou 5ºC, não haverão outros assuntos para serem tratados posteriormente, por mais louváveis que eles sejam.

 

por Gabriel Zago

18 de junho de 2012

 

Referências: Laboratório de Estudos Populacionais da Universidade de Columbia, Nova York