Dossiê universitário: o dilema do ensino superior brasileiro

Pelo mundo, universidades de países em desenvolvimento estão cada vez mais se aproximando das universidades mais prestigiadas do planeta. Este é um esperançoso e animador sinal. Rapidamente, universidades do Terceiro Mundo estão tomando os lugares das universidades do Primeiro Mundo nos top 100 mundiais.

 

Harvard University

 

O fato de as ciências estarem se desenvolvendo nas áreas mais elitizadas educacionalmente da sociedade não quer dizer que o ensino universitário geral se desenvolve no mesmo ritmo. É indiscutível o fato de que universidades públicas são os melhores institutos de um país, pois propagam conhecimento, seres pensantes e críticos, pesquisas e desenvolvimentos em diversas áreas do conhecimento; mas elas só podem manter seu grau máximo de eficiência quando valorizadas pelo governo e pela população. Por trazerem tantos benefícios à humanidade, elas deveriam ser preservadas e zeladas com máxima eficiência, a fim de que nunca parem suas atividades, e sejam sempre reconhecidas como o centro de todo um sistema político, a responsável importância de tudo o que ocorre na sociedade.

São elas, as precursoras, fundadas primeiramente pela Igreja Católica Apostólica Romana no século XII, que são as segundas instituições mais antigas do mundo, as bases da civilização ocidental. “É grave calúnia dizer que a Igreja tinha o interesse em manter o povo na ignorância para dominá-lo; os fatos mostram o contrário; e contra fatos não há argumentos”. A Igreja Católica foi a mãe das universidades. Sobre a questão da ignorância, René Taton disse que a ”Igreja Católica, na Idade Média, quando surgiram as universidades, salvou e estimulou muito mais do que freou ou desviou. Por isto, embora só queira apelar para a Antiguidade, a Renascença é realmente a filha ingrata da Idade Média”. Retomo o assunto posteriormente.

A história garantiu que a melhor forma de se obter funcionalidade em um determinado setor cambaleante, é pelo meio de greves e manifestações conjuntas de pessoas com a meta de atingirem o mesmo interesse. Enquanto no resto do mundo as universidades progridem, no Brasil enfrentamos o colapso de um sistema pechoso.

 

Greve

 

No primeiro semestre de 2012, por todo o país, a greve das universidades federais exibe, cada vez mais, o resultado de uma estratégia falha de um governo mal planejado, que decidiu construir inúmeras universidades por todo o país a fim de levar “desenvolvimento” às áreas privadas do mesmo, e com a ganância de provar que fora o melhor governo da história brasileira ganhando o título de o governo que mais construiu universidades em menos tempo.

É certo e incontestante que universidades realmente transbordam conhecimento, quando bem administradas. Construir universidades em estados onde não existe público para usufruí-las, ou então, construir campi de universidades prestigiadas em grandes centros para serem abandonados em curto prazo por falta de verbas, docentes ou infraestrutura adequada, como ocorre na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desde 2009 (governo Lula), nada mais é que um disperdício de verbas públicas. Em outras palavras, não adianta o governo expandir a abrangência do ensino superior construindo diversos novos campi em todo o país, sendo que em pouco tempo abandona completamente estes campi.

Sobre os fatos: o governo Lula criou um projeto de expansão para a Unifesp. Em 2007, o campus da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Unifesp (EFLCH-Unifesp) foi instituído, porém hoje o campus está sucateado. Os estudantes estão tendo aulas em uma creche nas proximidades do campus por falta de espaço no mesmo, enquanto sofrem com outros problemas, como falta de bandejão universitário, transporte e péssima infraestrutura do campus, além da falta de professores. Alguns dos problemas citados, também ocorrem em outros campi, como o de Santos, que recentemente teve o prédio interditado devido à queda de uma parte do teto de um dos prédios da universidade, e também na Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Unifesp (EPPEN-Unifesp), criada em 2011, onde os alunos sofrem com a falta de professores. Do outro lado da gangorra, uma mídia manipuladora e altamente alienadora se refere aos estudantes como vândalos e baderneiros e não explica em seus noticiários o porquê dos protestos, enquanto convence facilmente uma população inteira a ver os discentes como desinteressados e os docentes, que ganham atualmente menos que piso nacional, como gananciosos por quererem um aumento salarial digno de sua condição e um plano de carreira melhor elaborado.

Em protesto pacífico na porta da reitoria em São Paulo, em maio de 2012, estudantes da Unifesp foram recebidos com a tropa de choque. É incrível o que nossos antepassados fizeram para que hoje pudéssemos ter o direito de manifestar, e não podemos nem fazê-lo de forma digna e pacífica para garantir nossos direitos. O movimento estudantil de 2012 continua sendo reprimido como era durante o Regime Militar. Cadê a polícia atrás dos ladrões? Ela está ocupada impedindo a manifestação de estudantes. Além dos protestos de 2012, também houveram protestos em 2010 e 2011 na Unifesp.

 

 

Além da Universidade Federal de São Paulo, diversos outros centros de excelência em ensino superior sofrem com carências. Citando brevemente outras instituições que enfrentam os mesmos problemas da Unifesp, além de outros piores, há a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), entre outras.

A greve dos docentes de 2012 é uma bolha que veio crescendo há alguns anos e entrou em colapso quando atingiu seu ponto crítico.

Enquanto o governo federal libera desenfreadamente verbas para a Copa do Mundo de 2014 e vê menos de 10% das obras concluídas, se o mesmo dinheiro fosse gasto no combate ao ensino superior público capenga do país, os resultados seriam muito mais aparentes.

No embalo da greve docente, há a exigência de 10% do PIB para educação, juntamente com outras; e o ministro da educação do governo Dilma, Aloísio Mercadante, dizendo que “não vê o porquê de uma greve desse porte”. Está mais do que claro que o governo não se importa por 90% das universidades estarem em greve no país (quase 60 universidades) e quase 2 milhões de estudantes estarem prejudicados por mais de 3 meses sem aulas.

 

 

Mesmo o ensino superior público se encontrando em um estágio crítico, ele não perdeu e nunca perderá seu prestígio, sempre permanecendo a frente de instituições privadas nas pesquisas nacionais e internacionais, como a Times Higher Education e a Universidade de Shanghai.

O ensino privado se tornou comércio. Todos os dias, novas universidades, logicamente privadas, abrem suas portas para venderem seus diplomas. Universidades privadas de qualidade ainda existem. Uma pesquisa divulgada em 13 de junho de 2012 pela consultoria britânica Quacquarelli Symonds (QS), revelou que das 10 melhores universidades do Brasil, 8 são de domínio público: USP (pública), Unicamp (pública), Unifesp (pública), UFRJ (pública), UFMG (pública), UFRGS (pública), Unesp (pública), UnB (pública), PUC-Rio (privada) e PUC-SP (privada). O mais preocupante é que, das 10 melhores universidades do Brasil, metade se encontra em estado de greve.

Além dos dados apresentados no artigo presente, o Instituto Paulo Montenegro (IPM), vinculado ao IBOPE, revelou que 38% dos estudantes do ensino superior não dominam as habilidades básicas de leitura e escrita, segundo o Indicador de Analfabetismo Funcional. O indicador reflete o expressivo crescimento de universidades de baixa qualidade, todas da rede privada de ensino. Segundo a diretora do IPM, Ana Lúcia Lima, o aumento da escolarização não foi suficiente para garantir aos alunos os domínios básicos de leitura e escrita, sendo reforçada a necessidade de investimentos na qualidade do ensino. Apesar do fato de 38% dos universitários não dominarem as habilidades básicas de escrita e leitura, o governo obriga as universidades federais a mantarem 50% de suas vagas para estudantes provindos da rede pública de ensino. Isso faria o prestígio das universidades diminuir? Não existe outra falha no planejamento nessa futura lei?

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 30 milhões de estudantes ingressaram no ensino superior entre 2000 e 2009. “Algumas universidades só pegam a nata e outras se adaptaram ao público menos qualificado por uma questão de sobrevivência”, comenta Ana Lúcia, se referindo ao crescente aumento do número de instituições privadas de ensino superior.

As universidades que não são dirigidas para a elite por, principalmente, não cobrarem um alto valor em troca de um excelente ensino, como o caso da Universidade Paulista (UNIP), se mantém pelo marketing, adaptando seu foco ao público menos qualificado. Recentemente, após denúncias de fraude, a UNIP foi acusada de ter selecionado os seus melhores alunos para fazerem o Enade, exame nacional que avalia o desempenho dos alunos dos cursos de graduação, e, dessa forma, elevar o índice da instituição e utilizá-lo como estratégia de marketing.

Nos resultados do Enade de 2011, quase 40% das instituições ficaram abaixo da média, majoritariamente privadas, enquanto as melhores instituições do país foram as universidades federais, recebendo elogios de Fernando Haddad. “A qualidade está nas federais. As melhores instituições de ensino superior do país são federais”, disse. Liderando as universidades federais, apareceu a Unifesp, seguida pela UFRGS, UFMG, UFRJ e ITA.

Em suma, sempre é tempo de novos investimentos no setor educacional, principalmente o superior privado crítico, que tem como clientes a maior parta da população no ensino superior; o que poderia ser feito em parcerias com empresas também privadas. É inegável que o setor educacional como um todo, que ainda sofre de tantas carências, precisa de uma população maior empenhada em mobilidade, porque educação é um direito básico a qualquer cidadão, que deve ser garantido pelo Estado.

“Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda”. A frase de Paulo Freire nos leva a um ciclo vicioso em que a população, privada de um bom ensino, é, em sua maioria, ignorante demais para entender que é preciso lutar por um melhor ensino e que é incapaz de transformar a educação; o que, por sua vez, fica incapaz de transformar a sociedade.

 

por Gabriel Zago

23 de julho de 2012

 

Referências:  Jornal O Estado de S. Paulo, Prof. Dr. Felipe Aquino (Unesp, ITA, USP), Dr. Thomas Woods (PhD de Harvard, 2005), René Taton, Quacquarelli Symonds, IPM-IBOPE, IBGE.

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